As máquinas de venda de bilhetes no Metro de Nova Iorque estiveram praticamente inativas em todas as estações durante várias horas. Apenas uma pessoa, incontactável e a 3 horas de distância, podia aceder ao sistema que resolvia o problema.

Parece uma história de filme, mas aconteceu este ano e foi denunciada pelo jornal The New Yorker na peça “Pode Andy Byford Salvar o Metropolitano?”, do jornalista William Finnegan, que analisava os seis meses de ações do presidente da autoridade de transportes (MTA).

De acordo com a peça, numa tarde de sexta feira em maio, Byford foi avisado de que nenhuma máquina de venda aceitava pagamentos com cartão de débito ou crédito nas mais de 400 estações de metro de Nova Iorque.

O apocalipse tinha chegado e instalou o caos na rede. Filas intermináveis, clientes revoltados, chamadas em catadupa e, por fim, passageiros que saltaram os torniquetes para usar os comboios, de acordo com o New Yorker.

A resolução do problema foi mais lenta que o desejável e virou até piada. Byford contactou de imediato o pessoal da informática para fazer um reboot às máquinas de venda, e descobriu que apenas um engenheiro de nome Miguel sabia como entrar num subprocessador e resolver o problema.

metro nyc

À Mashable, a MTA defendeu que “a situação era um pouco mais complicada do que a incapacidade de fazer reboot, devido a um homem fora do horário de trabalho com a palavra passe”.

E na hora H, em que Miguel se assumia como o salvador do mundo subterrâneo, ele estava a caminho de casa em Port Jarvis, algures a 3 horas de distância, sem atender as múltiplas chamadas que lhe chegavam e que o jornal francês 20 Minutes defende que foi “sem dúvida em virtude do seu direito à desconexão”.

Quando finalmente houve resposta de Miguel, o problema foi solucionado e logo Byford ordenou que queria “uma dúzia de Miguéis treinados e prontos até segunda feira”. Segundo disse a MTA à Mashable, já foram treinados quatro empregados e dois consultores com “a competência que antes apenas residia na mente de Miguel”.

 

Chegando ao ponto de rutura

Andy Byford, de 52 anos, foi nomeado presidente do MTA em novembro de 2017 e pretendia “reconstruir o sistema de transporte público enclausurado da cidade, depois de anos de declínio caótico e mau funcionamento total”, de acordo com o The New Yorker. Mas não será tarefa fácil.

A situação que ocorreu no metro de Nova Iorque em maio não foi novidade: de facto já havia acontecido antes, possivelmente a uma escala menor, como descobriu Byford naquela tarde quando alguém sugeriu que não se reiniciasse todo o sistema “como da última vez”.

Numa cidade que atinge um máximo histórico de habitantes, há uma sobrecarga da rede de metro, que conta com menos quilómetros em uso que nos anos 40 do século passado.

Os fatores do declínio do uso de transportes públicos, diz Byford, relacionam-se com o mau serviço prestado, mas também com o leque de oferta cada vez mais variado, como as aplicações de boleias e de transporte privado.

As falhas de uma máquina cada vez mais mal oleada refletem-se no número de passageiros e de viagens que diminuíram pelo 2º ano consecutivo. De acordo com o jornal Curbed New York, em 2017 registaram-se menos 30 milhões de viagens do quem em 2016.

A Mashable refere-se a esta deterioração do metro de Nova Iorque como “uma anedota nacional, a batata-quente política e uma realidade enlouquecedora para os passageiros”, onde “os oficiais da MTA são impotentes a parar o caos”.

Apesar do investimento de 1 bilião de dólares para reduzir os problemas no plano atual, como indica o Curbed New York, as melhorias na experiência dos passageiros permanecem ainda invisíveis.

 

Será este o desastre iminente na capital portuguesa?

Em Lisboa, presenciamos constantemente falhas na rede de metro. Máquinas que não aceitam cartões, comboios com tempos de espera superiores a 10 minutos em hora de ponta, trajetos feitos em apenas três carruagens e o fatídico aviso “existem problemas na circulação, o tempo de espera pode ser superior ao normal” são tão certos quanto aquele café que o português bebe antes do trabalho.

Sem justificação nem solução à vista para as constantes falhas de um sistema utilizado por milhares de pessoas diariamente, resta-nos esperar que, no meio do caos, não tenhamos apenas um Miguel português para resolver o caso.


Joana Cidades

Marketing and Brand Manager